helenismo e cristianismo
eliane colchete
extrato do meu estudo inédito intitulado "O devir das ciências humanas"
Ao longo do helenismo, o período macedônico-romano em que se tornou geral a influência da cultura grega, a atitude puramente intelectual, como por exemplo a antidogmática cética ou a crítica epicurista contra toda superstição, se tornam bastante raras, praticamente não ocorrendo qualquer pretensão de explicação física ou mecânica dos processos da natureza. A filosofia que se fez na Grécia até aí é utilizada como forma, mais do que conteúdo, para facultar a expressão cultural dos outros povos integrantes do império, cujo horizonte é místico e sapiencial antes que especulativo e científico.
Tudo é visto como uma rede de relações mágicas, influxos misteriosos que propiciam os acontecimentos. A cor, sendo qualidade, por exemplo, é utilizada como prova de que o racionalismo jamais poderia explicar todos os fenômenos. Os Oráculos Caldeus e o Timeu de Platão são considerados os textos fundamentais na época em que predomina esse tipo de inclinação espiritual.
Os
que se devotam agora à especulação filosófica de modo algum se
isentam dessas crenças. Mas esses filósofos se encarregam de algo
outro em relação aos teurgos que eles não deixam de respeitar e
que não se interessam por tais tarefas. Trata-se de especular sobre
a realidade suprassensível, determinando-lhe as formas
hierarquicamente conceituadas. O mundo sensível é em todo caso
concebido como meio de interação de influências mágicas. Mas o
que os filósofos do helenismo pretendem é compreender a realidade
que está acima da magia do mundo.
As tendências sincrética e mística persistem ainda assim pois o
filósofo, como Plotino, também é o homem do seu tempo. O
neoplatonismo de Plotino desenvolve, por exemplo, paralelamente à
filosofia, uma religião autêntica dotada de dogmas e uma profusão
ritual bastante peculiar . E se o filósofo se singulariza em relação
ao teurgo, a princípio, por sua recusa dos meios da magia, o teor
mesmo das filosofias se concentram progressivamente em torno de uma
realidade suprema visada como objeto de veneração religiosa.
Quanto
ao cristianismo a questão inicial importante é a relação com a
filosofia. Antagônica a todas as formas de religiosidade pagã, o
cristianismo apresenta duas posições opostas quanto à especulação
e à cultura filosófica proveniente dos gregos. Conforme Sciacca, os
apologistas latinos (Tertuliano, Arnóbio, Minúcio e Lactâncio)
representam a posição daqueles que consideram a filosofia inútil
ou perniciosa – a mãe de todas as heresias. Já os alexandrinos
Clemente e Orígenes admitem a continuidade de pensamento grego e
revelação cristã.
Mas
nesse aporte a continuidade apresenta pontos de inflexão,
refratando-se. Por vezes de modo sutil. Utilizando-se a fórmula
proferida por um filósofo em seu contexto, conduz-se a conclusões
exclusivamente oriundas do dogma da revelação. É assim, por
exemplo, com o monoteísmo de Antístenes e Xenófanes e com os
atributos de Deus enumerados por Cleantes ou pelos pitagóricos. Tudo
é desde então aplicável ao Deus cristão e a sabedoria anterior
pode ter se aproximado da verdade, mas permanece fundamentalmente
incompleta.
Contudo,
naquilo que mais importa, é o próprio molde do ensinamento
filosófico grego, sua coerência e organização teórica, que o
cristianismo inteiro emprega constituindo – se assim enquanto
doutrina consistente. Orígenes, no século II, produz, com efeito,
sob a influência da filosofia sincretizada judeu-grega, a pioneira
exposição sistemática do dogma cristão. Quanto a isso ressalta-se
a importância da filosofia judeu-alexandrina de Filon que no século
I já pretende encontrar nos filósofos gregos a verdade do Velho
Testamento interpretado alegoricamente.
A
posição dos apologistas, porém não foi de todo minimizada ao
longo da dominação feudal. Ainda nos século X e XI conta com
adeptos como São Bernardo e os vitorinos Gualtério e Gofredo. Mas é
interessante observar que a continuidade temática persiste mesmo aí
pois na vontade de negação reside uma via polêmica de
argumentação, de modo que a tentativa de argumentar contra as
proposições dos filósofos teve o efeito de conserva-las.
Subsiste
contudo a consternação com que se depara aquele que observa a
mudança brusca de natureza das fontes de reflexão no limiar do
feudalismo. Na expressão de Bréhier “o VI e o VII séculos são
momentos de grande silêncio”, após o interregno da
consubstanciação doutrinal ainda no helenismo, em que todas as
questões foram se resumindo às formas fixadas do dogma. Mas pelo
que vimos nesse momento bem helenista do cristianismo nascente sua via mística não
parece de todo deslocada no meio da profusão de religiões, oriundas
do cenário de cosmopolitismo romano, ou da convergência
característica de especulação filosófica e contemplação do
sagrado.
O
que o cristianismo instaura não permite que se estabeleça a mesma
divisão de trabalho que se pôde localizar entre a filosofia e as
seitas pagãs do helenismo. Ao mesmo tempo em que prolonga motivos
bastante próprios do período só o faz a custa de inviabilizar não
só a relação entre essas instâncias mas a existência mesma da
religião pagã e a consistência mesma da filosofia antiga. O que se
torna surpreendente é que ao solver essa consistência o
cristianismo lança o novo meio conceitual no qual a filosofia se
desenvolve de modo que a historicidade do conceito se manterá
integralmente.
Talvez
não seja demasiado simplista relacionar os fatos de modo a lembrar
que se a filosofia nasce na transição da economia agrícola para a
intensa movimentação comercial e industrial na Grécia, é
coerente que a interiorização feudal tenha sido favorável à sua
estagnação. Contudo o cristianismo recolhe de um modo ou de outro a
linguagem do conceito. Interessa agora examinar o modo pelo qual isso
foi feito. II
Já afirmei que o helenismo em geral buscou mais a sabedoria do que o conceito. Analogamente Américo Pessanha observa algo importante sobre a motivação do pensamento de Santo Agostinho. A filosofia não se visa, no Doutor da Graça, como disciplina teórica que coloca problemas à estrutura do universo físico ou à natureza dos deuses, mas como indagação sobre a procura da beatitude enquanto modo mesmo de ser humano. Assim a inserção desse pensamento em seu período é bastante evidenciada.
Mas
a continuidade temática se refrata, pois se no helenismo a procura
da sabedoria, como felicidade e ideal de bem viver, é algo inerente
à humanidade porque o ser humano é racional, no cristianismo a
beatitude se basta como Ideal que é já essência do humano. No
“Contra os Acadêmicos” Santo Agostinho combate o ceticismo
aliando felicidade e verdade – só se é feliz tendo encontrado a
verdade. Mas a conseqüência é mais o enraizamento ético do
conhecimento do que a identidade helênica de bem viver e
racionalidade. Assim se esse enraizamento é já socrático-platônico,
sua consistência não se deriva do mesmo modo.
Pois
para o cristianismo a questão importante é negar que verdade seja
apenas uma via da razão. Ela o é inicialmente da fé já que todo o
sistema depende de uma verdade a ser aceita por revelação. Aceita
essa proposição única, fundamental e indemonstrável que é Cristo
tudo o mais recebe o juízo conforme o critério dessa
aceitabilidade, na ideologia da salvação. Mas não se trata de
uma verdade lógica, não havendo tampouco necessidade de se apontar
esse fato ao modo de uma carência já que tão fundamental é a
aceitação daquilo que tem caráter de revelação quanto a
consciência desse ser assim do revelado. Deve-se crer porque é
absurdo – se fosse razoável não seria o caso de crença e sim de
evidência.
Observe-se
a questão proposta anteriormente, sobre a separação das idéias e
a introdução da descontinuidade na Physis. Em Platão o que se
destaca da natureza do mundo material é uma realidade sagrada que
tem a natureza dos deuses. Os seres divinos “nascendo uns dos
outros” compreendem a “verdadeira realidade” em relação à
qual o mundano se conserva como mera aparência. No entanto nessa
hierarquia celeste subsiste algo da unidade da Physis, da noção
helênica de continuidade inerente à sua concepção de natureza no
sentido de realidade fundamental.
No
cristianismo o que se formaliza como posição oficial após o
Concílio de Nicéa (325) é a adoção da trindade como única
realidade a que se pode atribuir ser Deus. Multiplica-se a
argumentação cristã contra a noção de hierarquia sagrada dos
seres celestes. As objeções tematizadas nos argumentos são por
vezes bastante medíocres mas a que me parece importante é a de
Lactâncio. Criticando os estóicos, ele inverte o sentido da
asserção pela qual os astros são deuses por apresentarem o curso
mais regular e racional. Argumenta-se então que justamente Deus é
aquele que tem poder para agir como quiser, isto é, possui “vontade
livre”. As manifestações de Deus tem a ver assim com decisões
imprevisíveis como a inspiração dos profetas ou o enviar do
Cristo.
Como
se poderia compreender uma mudança tão acentuada de mentalidade se
a própria ordem racional , isto é, regular, não basta mais para
prover o caráter de divindade aos seres que a apresentam?
Aparentemente o fator de referência cultural poderia ser dado como
decisivo, da Grécia à Israel. Mas o cristianismo mesmo é uma
mudança de registro em relação à cultura de Israel pois é
possível mostrar que os evangelhos conservam já efeitos da mescla
característica do cosmopolitismo romano. Santo Agostinho, por
exemplo, se utiliza da introdução do evangelho de João
reportando-se, senão à letra ao menos quanto ao espírito, a textos
platônicos de proveniência egípcia.
Deslocamento
do âmbito da evidência para o da revelação, identificação da
supremacia espiritual com o poder da vontade, são fatores que
convergem na singularidade do cristianismo e que podem ser
relacionados à observação de Paul Ricoeur em “A Imagem de Deus e
a Epopéia Humana”. Ricoeur enfatiza aí a importância nova que o
cristianismo atribui ao elemento humano.
Examinando
o texto de Ricoueur é inevitável o reencontro daquele recurso
retórico, a antítese, que irá ser definitivamente tipificada no
barroco, este atualizando-se como a última fulguração da
mentalidade cristã antes da separação contemporânea de igreja e Estado. Por mentalidade cristã denomino não apenas
adesão ao cristianismo a qualquer época mas sim o período
específico de sua dominação estatal. Mas a linguagem da antítese,
prefigurando-se em Ricoeur através da dialética do mal e da graça,
é aí entrelaçada com o motivo do paradoxo.
O
que assinalei como entrada na mentalidade cristã, a transposição
da evidência para a revelação, envolve agora esse fator enfatizado
por Ricoeur. Pois se na economia da criação o humano é o fator de
propulsão, aquilo que impele à evolução assegurada como promessa
pela segunda vinda de Cristo, o mal desempenha nessa economia, como também a
graça, papel constitutivo. Nenhum destes elementos antitéticos se
tira ou acrescenta mas se medem e se depuram como o processo de
desenvolvimento da história.
O
paradoxo será então aplicado por Ricoeur como envolvido na natureza
humana tal como visada no cristianismo. Os padres da igreja concebiam
o ser humano como ser, paradoxalmente, singular coletivo.
Reencontramos assim vários temas caros ao pensamento hermenêutico contemporâneo tanto quanto ao pensamento retórico que pudemos atribuir ao humanismo sofístico grego antigo.
O
período prevalente da mentalidade cristã inicia-se com o paradoxo
feudal, encerrando-se com a antítese barroca. A relação da
verdade com o desvelar e com o revelar e a apreensão do humano na
partição do coletivo, que confere a força das comunidades do
cristianismo nascente, também encontram de certo modo seu termo na
emergência da reforma, pela qual o círculo do ser-com se resolve na
linha reta do “eu” no liberalismo após ter se configurado na espiral barroca. Com efeito poder-se-ia propor que a espiral figura o
movimento antitético mesmo pois a cada volver circular ao ponto mais
inferior do círculo se contrapõe o ponto superior, podendo-se traçar uma reta vertical unindo a ambos os pontos ao mesmo tempo que delimitando dois espaços lado a lado, como a
multiplicação infinita de pares de opostos do cristianismo, trevas
e luz, mal e graça, inocência e pecado, bem e mal, sagrado e
mundano, inferno e céu, etc.
A
antítese barroca prepara de certo modo o individualismo liberal ao
propor nessa relação antitética de oposição o que só poderia
constituir a força da religião nascente no elemento relacionante do
paradoxo. O “eu” do capitalismo avançado é assim a solução da
antítese barroca pela prevalência, como linha reta ou via única,
desse pólo subjetivo no desenvolvimento da historicidade conceitual
alimentado pela ética protestante. Mas no momento que examinamos
agora o manejo do paradoxo se faz coextensivo ao acesso
hermenêutico-retórico na medida em que o desvelar é o receber da
escritura, e o revelar é o descobrir de sua verdade , geralmente
descrito como experiência de iluminação espiritual de que provem o
aceitar.
Logo
a compreensão se instala desde o início no âmbito da palavra,
dependendo dessa relação constitutiva com a linguagem pela qual o
absurdo é repentinamente compreensível, isto é, aceitável. A
comunidade cristã primitiva relança assim algo da participação
total da polis dos sofistas pois o ser singular coletivo,
desenvolvendo-se como auto-compreensão do humano, o dota com força
de inserção social considerada essencial, não produto de uma
pertença contingente ou derivada, particular a um grupo, classe ou
etnia.
Mas
nada mais afastado do modo de aglutinação dessas comunidades do que
a autonomia do cidadão do século V, ele mesmo encarregado de seu
mundo e de suas instituições. Se o cristianismo recolhe as
conseqüências da reversão retórica pela qual não há objeto
primeiro mas acordo provisório acerca da realidade, ele não o faz
sem recolher também a transposição platônica pela qual esse
acordo não se produz pelos homens nem deve ser impermanente mas se
impõe pelo eidos, a realidade não sendo nem consensual nem
objetual mas ideal, modelar.
Contudo
no platonismo essa eternidade é eminentemente espiritual,
identidade a si do conceito imutável. A assimilação cristã por
sua vez precisa transpor o caráter modelar do eterno como expressão
de uma vontade ao modo de uma subjetividade, aquela que cria o
universo consoante a fórmula de Feuerbach pela qual o cume do
princípio de subjetividade é a criação ex nihilo.
Assim
o obedecer que se torna “regra de vida” vem a ser o
correspondente dessa subjetividade absoluta como fator de aglutinação
das comunidades do cristianismo antigo. Penso que se pode desenvolver
esse problema da transposição do conceito ao plano de
subjetividade feudal através do exame dos temas de continuidade
entre Plotino e Santo Agostinho.
III
A
influência do neoplatonismo sobre o pensamento de Santo Agostinho,
que se desenvolve entre os séculos IV e V, é ela mesma uma
questão. Trata-se de antepor as teses de sua negação ou
efetividade. Bréhier, por exemplo, tende para a negação,
considerando que, apesar de sua simpatia por eles, Santo Agostinho se
afasta bastante do platonismo assim como da espiritualidade de
Plotino. Contudo, creio que não se pode ignorar a interlocução
inegável ainda que o que se utiliza dessas fontes não se aplique de
modo algum nas mesmas condições, já se tendo até proposto ser
Agostinho o pensador pioneiro da modernidade. III
Com efeito, se bem que sintomático, não creio que se possa afirmar isso de todo uma vez que a consistência feudal conserva-se bastante específica, se bem que há certamente o fato de uma novidade real em relação ao pensamento antigo, já estabelecido nesse elemento de voluntariedade e subjetividade.
Quanto
às teses de identificação, costumam incidir, por exemplo, sobre a
doutrina da alma, a assimilação da trindade cristã às três
hipóstases neoplatônicas, a teoria do conhecimento por iluminação,
a concepção de tempo, e inúmeras figuras de discurso platônicas
que povoam os textos agostinianos. Limitando-me ao exame da
interlocução entre esses pensadores, contudo, torna-se favorecida a
visibilidade daquela refração que procuro localizar.
Assim,
quanto à natureza da alma, Plotino insere a sua compreensão no que
seria a doutrina platônica sobre a gênese do universo. Há uma
existência independente, não passível de predicação ou nomeação, ou seja, a
ela nada pode ser atribuído como uma qualidade nem dado como uma
designação. É algo originário, de que tudo o mais se deriva. Pode
no entanto ser concebida ao modo de hipóstase, termo que designa,
conforme Bréhier, algo existente independente de determinação. A
hipóstase originária é assim o Uno ou o Bem, não chegando a ser
substância, isto é, sujeito de determinação por atribuição
positiva.
A
hipóstase originária emana uma outra hipóstase designada Ser ou
Essência, Inteligência ou Mundo Inteligível. Essa também emana
uma outra hipóstase, que é a Alma. Entre as hipóteses o percurso é
do mais ao menos luminoso, sendo a origem comparada ao sol como pura
luz.
Após
a alma encontra-se o mundo sensível, “extremo desvanecimento” do
alcance da luz que não se identifica com a matéria
considerada como sem qualidades, princípio de indeterminação,
espelho no qual a alma reflete as formas inteligíveis. O mundo
sensível depende desse espelhar para ser constituído mas a
realidade mesma não se confunde com ele pertencendo apenas à
Essência, ao Ser e ao Bem de que deriva. A doutrina de Plotino
concentra-se na ascenção às realidades supremas, supondo uma
ascese que vai do controle das paixões no plano físico ao êxtase
do contato intelectual com a luz do Bem que supera até mesmo o
estágio de atividade do pensamento discursivo.
A
alma se descreve assim como “imagem” que “precisa olhar para o
seu original”, sendo este o “Princípio Intelectual”. Ou seja,
a hipóstase Alma se espelha na hipóstase Inteligência de modo que
desse modo pode informar a matéria organizando-a, pois a Alma se
estende por todo o corpo em que ela habita, enquanto que a
Inteligência contempla o Bem. Contemplando o inteligível a alma
organiza o sensível. O que se poderia supor então é que se trata
da mesma submissão da alma cristã a Deus.
Oposto
ao processo de emanação do Uno ao múltiplo – o movimento de ir,
ou processão, proodos – há o processo de
conversão do múltiplo ao Uno – o movimento de vir,
epistrophé . Em Plotino as almas singulares estão contidas
na alma do universo, cada ser humano é uma ideia ou ente
inteligível, espiritual e eterno. Mas pode-se considerar a alma
tanto sob esse aspecto de reflexo da ideia quanto de princípio que
vivifica o corpo. O objetivo da ascese intelectual será assim
desfazer a identificação que se tem com o aspecto de relação
corpórea da alma, isto é, com aquilo que dela se poderia derivar
algo como a subjetividade, para reconduzi-la à lembrança de sua
origem sagrada.
Já
em Santo Agostinho a relação da alma é com o criador, subsistindo
sempre uma diferença de natureza entre criador e criaturas. Algo
paradoxal incide nessa relação, pois a submissão da vontade a
Deus é emancipadora da noção mesma de vontade no ser humano, isto
é, do visar a existência como subjetividade já que a consciência
dessa relação enquanto decisão pessoal torna-se fundamental na
economia da salvação. Trata-se de uma revolução o “pensamento
de si” de Agostinho, conexo à sua teoria do conhecimento. Para
apreender o que se desenvolve aí é preciso confronta-lo com o
análogo plotiniano.
Ocorre
que a alma em Santo Agostinho realmente conserva a flexão platônica
dos elementos anímico e corporal. Sendo assim a alma tem acesso a
sensações provindas do corpo, as quais possuem o caráter de
instabilidade, não podendo o que vem dos sentidos fornecer algo como
conhecimento. Mas a alma pode, sim, conhecer, e o que ela conhece são
princípios imutáveis como os da matemática e aqueles que Agostinho
propõe como sendo os da ética. O conhecimento é facultado à alma
porque ela recebe a luz que vem incessantemente de Deus,
possibilitando o processo de produção das idéias que ela forma.
Analogamente
ao platonismo, e à doutrina da reminiscência, a alma possui o
conhecimento previamente à experiência dos sentidos. Mas se em
Platão “previamente” significa numa outra existência, em Santo
Agostinho esse termo significa apenas “independentemente”. A
iluminação que vem de Deus age em relação à ideia de modo
semelhante à luz do sol em relação às coisas, permitindo que
sejam vistas.
Em
Platão a visibilidade vai da alma à ideia mesma, ao inteligível
ou essência enquanto ato de reminiscência. Mas a ideia lembrada
pela alma conserva-se existencialmente independente desta. Quanto a
isso ocorre em Plotino um certo afastamento do platonismo original e
uma influência de Aristóteles. A segunda hipóstase, equivalendo à
essência e à inteligência, reúne o que no platonismo permanecia
separado, isto é, o inteligível e a inteligência, o conhecido e o
cognoscente. O pensamento de si é à hipóstase Inteligência a
garantia formal de sua própria existência, mas também a garantia
da certeza quanto ao seu próprio conteúdo enquanto conhecimento.
Santo
Agostinho institui o pensamento de si da alma também como certeza de
existência na via da negação do ceticismo radical. Mas sem que
isso de modo algum conduza à certeza quanto ao conteúdo.
Inversamente é o fato mesmo de se poder estar errado que garante o
fato de se estar existindo. E apesar da instabilidade de todas as
aparências sensíveis o te-las não pode ser negado a sério. Assim
como assinalou Bréhier o conhecimento de si em Santo Agostinho é
autoconhecimento, em Plotino é conhecimento da essência inteligível
das coisas.
Esse
plano de subjetividade a que o cristianismo transpõe aquilo que ele
prolonga da filosofia antiga não manifesta tampouco as
características da subjetividade moderna, a meu ver. Ele já se
afirma no âmbito da vontade pessoal, é verdade, mas de modo algum
se poderia por exemplo fazer convergir aqui o homem-metron de
Protágoras ou algo que pudesse rotular-se como subjetivismo. Ora a
própria inserção da sofística na Polis também não permite uma
identificação dessa proposição com o princípio ideológico
moderno de “eu”, o que evidencia o fato de que não se deve
igualar esses aportes apenas sob a rubrica geral de “humanismo”
ou “subjetivismo”. A consistência medieval traz justamente o
subjetivo sem com isso acarretar o individualismo.
Contudo
a doutrina da alma em Plotino opera nessa transposição de modo algo
complexo pois a doutrina da alma apresenta ainda uma nova autonomia
em relação ao platonismo. Isso se pode mostrar através da sua
conceituação do tempo.
Conforme Brhéhier, Aristóteles afirma que pensar o tempo conforme a medida numerante- a unidade que usamos para mensura-lo, isto é, o dia e seus submúltiplos – não é exato. Pois o tempo é aquilo que se conta em cada movimento, qualquer que seja, enquanto duração, o número numerado. Cada movimento possui sua duração definida como seu número conforme o antes e o depois.
Conforme Brhéhier, Aristóteles afirma que pensar o tempo conforme a medida numerante- a unidade que usamos para mensura-lo, isto é, o dia e seus submúltiplos – não é exato. Pois o tempo é aquilo que se conta em cada movimento, qualquer que seja, enquanto duração, o número numerado. Cada movimento possui sua duração definida como seu número conforme o antes e o depois.
O
instante, sempre identificado com o presente do agora, fim do passado
e princípio do futuro, é o que permite que possamos contar o
anterior e o posterior adotando como meio de contagem as revoluções
celestes, assim como para a mensuração da altura pode-se utilizar o
côvado. Mas como a altura está na própria coisa, assim também o
tempo.
Já
a crítica de Plotino amplia a de Bergson pois ele começa por
mostrar que esse tempo-movimento, mesmo com a ressalva aristotélica,
continua sendo pensado pela exterioridade, podendo sê-lo, é
verdade, mas assim conservando-se como derivado. É a noção mesma
de movimento que Plotino visa aí, pois ao invés de pensa-la
teleologicamente ele antecipa o tempo bergsoniano e, ao menos quanto
a isso, o da física moderna. Assim o movimento é ato que recomeça
a cada instante, isto é, alteridade incessante. Na hipótese de uma
realidade absolutamente sem mudança, a alma continuaria a mensurar o
repouso.
O
tempo intenso é aquele imanente à alma. Em sua atividade de
espelhamento material a alma temporaliza, ou melhor, a alma se
temporaliza organizando o sensível. Tempo de Narciso, já que o
espelhamento - organização é paradoxalmente voltado ao mesmo e ao
outro. Ao mesmo enquanto a alma organiza contemplando o mesmo
inteligível no qual ela mesma é enquanto dele procede. Ao outro
pois o que se espelha é o mundo sensível, o outro especular que é
matéria. Contudo é nesse outro que a alma se vê particularmente
ela mesma, não apenas parte ou prolongamento do Todo. Como Narciso
ela se deixa tragar pelo enfeitiçamento da matéria que lhe é
inevitável, pois é aquilo mesmo que lhe permite ter-se como
individualidade, subjetividade.
É
a natureza da processão que é complexa, podendo ser designada como
emanação, sim, mas sem que isso deixe de suscitar questões.
Inicialmente há o tema da queda que individua cada alma como
particular, privada. A individuação não se faz, para Plotino, como
em Aristóteles, pela quantidade de matéria. Não é a matéria que
individualiza cada alma que se separa do âmbito maior da Alma
hipóstase. A matéria surge como efeito sensível dessa separação
pois a alma irradia ou emana o seu duplo corporal ao se lançar no
movimento da processão.
Já
desde o início a organização universal se supõe como Alma
hipóstase, que cada alma individual, como idéia de indivíduo, vem
a exprimir. Reencontra-se essa concepção em Spinoza. Todas as almas
são a Alma hipostasiada, união-articulação da organização do
mundo. Mas se conservando sua diferença no interior desse todo, elas
não podem se dividir enquanto aí delimitadas. É só quando presas
do movimento intensivo no rumo descendente da matéria que a alma se
envolve com a atividade puramente subjetiva do espelhamento de si no
corpo que vem a animar.
As
diferenças intrínsecas, virtuais, o signo da multiplicidade
imanente ao universal, que se conjugam plenamente na hipóstase,
torna-se oposição, separação subjetiva no atual, entre almas
individuais que são agora pessoas, sujeitos de paixões e afetos. A
alma hipóstase seria, conforme a utilização por Plotino da
conceituação de Aristóteles, o gênero de que as almas individuais
seriam as espécies. O tempo decorre então do movimento ou tendência
da alma rumo ao sensível, é a vida da alma.
Heautem
ekhronosen – essa expressão nova que Plotino se vê obrigado a
introduzir para designar esse conceito de tempo traduzindo-se
precisamente por temporalização (En. III, 7). A novidade aqui é
de grande importância pois o que se introduz é o “sistema de
formação da subjetividade irredutível aos elementos constitutivos
do sujeito moral”, conforme a expressão de Alliez.
Parakoulouthesis, termo com que Plotino inaugura na filosofia a noção
de “consciência”. O tempo se autoconstitui como encadeamento
temporal do sujeito que é sujeito de vontade. Paradoxalmente essa
vontade é o signo mesmo de sua queda, de seu afastamento do modelo
inteligível, mas também do seu reencontro com “algo da livre
expansão do uno” que é puro ato.
“A
fonte da liberdade da alma”, conforme frisa Aubenque, está assim
“num plano mais elevado do que o da inteligência”. Aqui
precisamente se localiza a ultrapassagem histórica da ontologia
grega clássica. O homem interior, eis em que as três realidades, o
Uno, o Ser e a Alma, são como suas partes, já desde que há
absoluta identidade entre o visto e o que vê, a inteligência e o
inteligível. Essa identidade, só na alma individual encontra a
conseqüência real enquanto pensamento do humano – “tudo existe
na alma e a alma existe em tudo”, conforme sublinha Alliez.
Trata-se
de real afastamento de Plotino em relação a Platão pois se o
humano não se põe como nexo natural estabelecido na hierarquia das
hipóstases a posição da alma é única, mais eminente de certo
modo, pois se saber é ser, a atividade cognitiva é transformação
ontológica- restando que o paradoxo da processão se contorna pela
obra não menos anímica de conversão e pela experiência do êxtase
em que a alma se vê ela mesma como Uno.
Aubenque
ressalta que a temporalização é descrita fenomenologicamente de
modo pioneiro por Plotino pois trata-se do movimento “pelo qual a
alma se reconquista” sempre novamente por sobre a dispersão que é
inquietude. A agitação que traduz a sua tendência para o
outro-corpo-espelho-matéria, rompendo o círculo do mesmo pela
inquietude do instante, corresponde à irrupção no tempo do sujeito
fenomenal.
Temporalizando-se
o sujeito se recupera na linha reta do tempo orientada pelo futuro. O
uno-todo se torna progresso, unificando-se sempre o devir pelo que
está por vir, mas também autounificando-se a linha quebrada da
subjetivação num sujeito de vontade. O destacamento do todo, o
isolamento do princípio, a queda, são figuras da fenda constitutiva
da subjetividade como separação-pertença à origem.
Temporalizando-se, isto é, constituindo-se no tempo flechado,
irreversivelmente orientado pelo futuro, no envolvimento de seus
afazeres, na vontade que se envolve nas tarefas da vida, o sujeito se
autocompreende agora como vontade mesma de heteronomia em relação
ao todo – isso que é a audácia (tolma) da alma inaugurando o
tempo pelo fracionamento do Aion, eternidade, de onde surge Cronos, o
tempo-ação subjetivo.
Em
Plotino a eternidade não se confunde com o Uno – ela é vida da
inteligência assim como o tempo é vida da alma. O Uno permanece
sem portar nenhuma atribuição. Mas essa negatividade não se
concebe ao modo de privação. Inaugura-se também a positividade, na
filosofia, dos conceitos de infinito e de negação, esta vindo
conceituar a irredutibilidade do Uno à natureza do ser dos entes.
O
pensamento de Plotino insere-se com toda coerência no período
religioso em que à Polis participativa substituem-se as cidades
burocratizadas das monarquias helenísticas e de Roma. Trata-se da
experiência pioneira da solidão urbana, em que a consciência de si
se recolhe no particular, evoluindo no vácuo do político. A arte do
período se lança na aventura da expressão do sentimento, à forma
atlética do clássico vindo contrapor a forma ascética do
helenismo. Contra o estabelecimento da arte no elemento do sensível,
como imitação, Plotino a pensa, no tratado Sobre o Belo,
como desvelamento da essência, mais fundamentalmente do que toda
manifestação sensível. Como sublinha Aubenque, se o ente
dissimula o ser, a obra de arte o desvela.
IV Santo Agostinho: cristianismo e ocidentalização
IV Santo Agostinho: cristianismo e ocidentalização
Conceituar
o Logos como pessoa, como na atribuição a Jesus como o Logos, isto é o que Heidegger na "Introdução à
Metafísica" vai mostrar como essencialmente não-grego. Encontra-se
aí também, de modo muito sucinto, a relação dessa concepção
cristã com a filosofia da religião elaborada por Fílon.
Logos
, enquanto palavra, é mediador – mesites – entre criador e
criaturas. Na economia da criação que Fílon enuncia a palavra é
mesites porque encerra o mandamento, transmite as ordens que a
criatura tem que observar para de algum modo fazer preservar sua
relação com o criador.Na economia cristã da salvação o Logos é
mesites porque ele é relacionado a Cristo, o mensageiro ou enviado
que transmite as novas ordens, a boa-nova da salvação.
Mas
observando o processo de constituição feudal, e conforme o próprio
Heidegger, a onto-teologia está se configurando como a via de
ocidentalização propriamente “metafísica” . E se o plotinismo
já foi considerado como movimento não de todo enraizado na
grecidade, mas dependendo de elementos oriundos do Oriente, a questão
se torna bastante complexa. Na verdade é um problema em que várias
questões convergem.
Inicialmente
a questão da pertença grega do plotinismo, a seguir a relação do
cristianismo com a filosofia greco-latina, e como tudo isso converge
no pensamento de Santo Agostinho. A seguir a questão mesma do
Ocidente.
Quanto
ao plotinismo, creio que se pode propor uma compreensão de sua
realidade sincrética a partir da própria pluralidade que se
verificou na geofilosofia da Grécia. O elemento de contemplação,
que Alliez sugere como o orientalismo de Plotino, talvez pudesse ser
mais aproximado ao “pensar poetante” da ontologia fundamental, na
expressão de Heidegger, do que propriamente à onto-teologia
platônica. Aqui então seria bem o caso de inserir o afastamento da
estética do plotinismo em relação à mera pertença sensível que
Platão reserva à arte.
Quanto
à relação de cristianismo e filosofia, nenhuma aproximação desse
tipo poderia vir a se operar pois é na transposição mesma de
planos em relação ao Logos que se pode começar a propor a
vacuidade das discussões sobre a existência de um pensamento
cristão. Esse pensamento efetivamente se joga e se define como tal
no momento mesmo de anunciar-se como algo mais do que “pensamento”
no sentido “grego-filosófico” do termo.
Resta
então perguntar sobre o que há com a relação de pensamento
cristão e o que se diferenciou daquela ontologia fundamental, isto
é, com Platão e a metafísica ou o pensamento da filosofia helênica
assim como o cristianismo a defrontou desde o início. Pois se o
cristianismo deriva de algo que é não-grego essencialmente, como é
que nele se encontra o sentido histórico da ocidentalização como
via eleita na encruzilhada de possibilidades que se constituem desde
o helenismo?
Ocorre
que aquilo que vem a ser Ocidente não somente se distingue conforme
seus momentos propriamente constitutivos como levanta ainda a
indagação acerca desses momentos, como se houvesse algum obstáculo
em apreende-los simplesmente como estágios de algo já sempre e
intrinsecamente o mesmo.
Assim
desde a desterritorialização do feudalismo aqueu em relação à
máquina despótica oriental, abrangendo a operação de
racionalidade conceitual que marca o surgimento do jurídico na
Polis, o terceiro momento da feudalização vai definir como
ocidental não mais grego ou racional e sim cristão. Há, contudo,
desde a Polis à “cristandade do ocidente” que se singulariza em
relação ao oriente árabe, a partição da própria igreja
conforme sua pertença geográfica local “ocidental” à Roma
ou às regiões exteriores “orientais” de Grécia, Antioquia,
Bizâncio.
Sem
deter-me nas questões particulares que animaram a controvérsia de
ortodoxia e heresias da cristianismo ocidental e oriental, não
coincidindo de todo, importa observar como a ocidentalização caminhou
no seu sentido mais essencial: operação política na Grécia
primitiva, operação conceitual na Polis Helênica, e agora no
cristianismo uma operação complexa que dobra o político e o
conceitual ou, mais propriamente, teológico.
Pois
como assinala Bréhier, as grandes controvérsias da ortodoxia com as
heresias na patrística, isto é, desde o início do cristianismo
até a consolidação doutrinária no século V, estendendo sua
validade aproximadamente até o século X, importam mais à política
eclesiástica do que ao dogma no sentido de sua estrutura metafísica.
Não se trata, para o papado, de uma filosofia da natureza de Deus ou
teologia por si mesmo, mas apenas de assegurar através das fórmulas
mais convenientes o poder espiritual da igreja. É um problema
político e jurídico, não propriamente filosófico, que no entanto
importa ao conceito.
Contudo
aquilo que constitui esse novo mundo ocidental cristão mantém uma
relação inquebrantável com o processo geral de ocidentalização,
isto é, precisa de alguma forma integrar aqueles momentos
anteriores. Muito do problema da relação entre pensamento grego e
cristianismo nascente poderia se reduzir pela figuração da
realidade histórica do início da nossa era, em que nos cultos de
seitas proeminentes como a dos gnósticos adoravam-se imagens de
deuses da religião grega, de filósofos e efígies de Jesus Cristo.
E do mesmo modo aqueles que professavam o cristianismo estrito eram
freqüentemente oriundos de escolas filosóficas, havendo inserção
de pagãos e cristãos no mesmo ambiente cultural, com uma linguagem
comum.
Pode-se
então afirmar a dobra do político pelo teológico- filosófico como
constitutiva do cristianismo enquanto regime de dominação
eclesiástica. Mas a deriva propriamente conceitual aí só se
observa através daquela transposição de plano do Logos de modo que
é uma atitude inteiramente outra que se institui como exercício de
pensamento no interior do cristianismo.
Pode-se
avaliar esse salto comparando Atos, XVII com Coríntios, I,17.
Aceita-se geralmente essa comparação como uma mudança de atitude
do apóstolo Paulo em relação ao pensamento grego que estaria
prefigurando aqueles dois modos que examinamos anteriormente, a
recusa e a aceitação estratégica do discurso filosófico. Não
tendo sido bem recebido, o apóstolo se torna hostil.
Mas
penso que na realidade a identidade da atitude espiritual paulina não
só deve ser afirmada como é solidária da atitude mais básica do
cristianismo em relação ao seu fora. Isso pode ser entrevisto pelo
comentário, em Atos, sobre o sentido da atividade que estava tendo
lugar no Areópago: tratava-se de “passatempo”, isto é, de
simples e puerilmente trocar novidades.
Assim
mesmo ali onde aparentemente há uma atitude mais esclarecida a
concepção básica não mantem nenhuma comunidade com aquela que
anima a filosofia. Nesse sentido a única matéria de reflexão e
verdade deriva da aceitação da pessoa do Cristo, de obedecer à
ordem do “verbo”. Essa opção básica define o ser humano e
assim todo aquele que com ela não se defrontou não pode ser
considerado mais do que estando no exterior do estatuto de seres
adultos e responsáveis.
Como
lidar, porém, com a excelência da produção desses excluídos? Ora
enunciando que se trata de um furto – de Homero a Platão, conforme
a apologética antiga, tudo é cópia das escrituras dos judeus -
ora utilizando contra eles os seus próprios produtos conforme a
fórmula de Damasceno.
Na
evolução do feudalismo, com a reforma de Alcuino no final do século
VIII, essa posição de Damasceno evolui no sentido de uma repartição
de tarefas. A verdade , ou aquilo que é essencial, pertence ao
recebimento e aceitação da Mensagem. O que é mundano conserva o
sentido de sua utilidade prática e só assim deve ser acolhido.
Instituem-se as sete artes liberais, o Trivio (gramática, retórica
e lógica) e o Quadrívio
(
aritmética, geometria, astronomia e música) sem prejuízo para as
verdades da fé.
Mas
se ao poder eclesiástico a dobra do conceito só interessa
politicamente, ela não deixa de marcar o próprio percurso
espiritual daqueles que se envolvem com a controvérsia
anti-herética, como é o caso de Santo Agostinho. Assiste-se assim
nessa fase de consolidação doutrinária que é a patrística uma
verdadeira ruptura com o cristianismo primitivo, conforme observou
Alliez.
Santo
Agostinho é o artífice dessa ruptura na medida em que, desde uma
doutrina da missão salvífica que investe o iniciado na obrigação
de transformar a lei do mundo e da carne pela lei de Deus, todo o
sentido do cristianismo agora se transpõe ao “ homem interior”.
Trata-se de evitar as possíveis interpretações das Escrituras
capazes de investir a Mensagem de uma autêntica força de
transformação da exterioridade social.
Mas
como pensar esse “homem interior”? Insere-se aí, por exemplo, o
alcance do ante-pelagianismo agostiniano. Pois Pelágio afirma, numa
recuperação cristã da confiança estóica na virtude, o poder da
natureza humana em evitar o mal e fazer o bem, se assim desejar.
Aparentemente
o zelo de Santo Agostinho em relação a essa controvérsia pode se
explicar suficientemente pela conseqüência que ela acarreta. Pois
se Pelágio aporta a essa afirmação para lutar contra os que
querem se eximir de executar a lei de Deus sob a desculpa da fraqueza
da carne, o que se segue é a negação do pecado original. Deus não
poderia imputar a inocentes o pecado de um só homem, Adão.
Mas
essa conseqüência seria tão indesejável se ela não fizesse a
força do humano independente dos meios da “graça”, a saber, os
sacramentos da Igreja? Santo Agostinho
enuncia
assim, contra tal “heresia”, a sua doutrina da predestinação.
O bem só pode vir à alma decaída por uma graça especial que
pertence apenas àqueles predestinados eternamente por Deus para
recebe-la. Até um recém-nascido, sem batismo, é um pecador, assim
como todos os pagãos ignorantes da graça do Cristo.
Conhece-se
através de Pascal os problemas que uma tal doutrina suscitará
posteriormente. Aqui importa observar que essa concepção se
desenvolve com muita coerência na teorização do homem interior que
designa como a própria consciência da individuação a consciência
da diferença da criatura em relação ao criador.
Converge
aqui aquela reintegração do conceito, a plicatura do grego sobre o
não-grego, problemática característica a enfrentar na compreensão
da consistência medieval. Pois como não ver nessa ruptura com o
cristianismo primitivo que assinala o cristianismo imperial, em vias
de se feudalizar como instituição política dominante, o influxo do
neoplatonismo já ele mesmo sobredeterminado em relação à
filosofia helênica?
O
novo cristianismo agostiniano emerge na auto-certeza do sujeito
deslocando a cristã determinação anterior da certeza da salvação.
Fé como exercício da vontade, a certeza do sujeito sobre si mesmo
como possibilidade da certeza sobre Deus, a preminência da teologia
negativa já que essa realidade que é Deus não se deixa determinar
por nada que se restrinja meramente ao ser criado. O plotinismo
permite como vimos, efetivamente a mesma auto-certeza que deriva,
algo dialeticamente, do hipostasiar da alma em relação ao Todo.
E
já a relação de contemplação entre Alma e Ser faz intervir na
própria realidade anímica a identidade do conhecimento de si que
pertence ao Inteligível. Como afirma Heidegger, o neoplatonismo se
constitui como estrutura profunda do cristianismo.
Mas
o pensamento cristão vai tender a dialetizar aquilo que em Plotino
se desenvolve como movimento de ir e vir constitutivo da economia do
Universo. Pois entre os neoplatônicos os momentos sucessivos que
compreendem a via de multiplicação do Uno e a via de reunificação
do múltiplo são derivados de uma necessidade natural e eterna.
Assim o exemplo de Jean Scot Erigena,no século IX, que desenvolve
um esquema “neoplatônico” de divisões da Natureza: Deus
princípio, Verbo, Mundo, Deus fim. O Deus princípio é de onde
tudo procede, o Deus fim para onde tudo tende como termo do movimento
das coisas que buscam a perfeição.
Como
observa Bréhier, porém, esse não seria um verdadeiro sistema de
emanação e sim, propriamente, uma Teofania. Deus pai, Verbo filho,
sendo que em Deus ser e querer, natureza e vontade, são o mesmo. Há
desenvolvimento histórico e iniciativas aí onde o neoplatonismo só
via uma ordem eterna e imutável.
Quanto
a Santo Agostinho, ainda no processo inicial de redução cristã de
todo elemento pagão, se encarregará de dialetizar a relação
alma-todo de modo que o mais característico do cristianismo,
derivando de sua concepção pessoal de Logos, será a Cisão de
criador e criatura. Cisão irredutível entre homem e Deus,
dependência total do homem em relação a Deus. Como afirmou Alliez,
considerando o alcance da cesura entre os sentidos neoplatônico e
cristão do termo “conversão”, não se trata com Santo
Agostinho da ilusão do conhecimento do semelhante pelo semelhante
mas sim de “apreensão” entre princípios opostos que vão
encontrar a síntese, como reconciliação, em Cristo.
A
oposição se relança tematicamente em vários níveis. Há duas
leis, a de Deus segundo o homem interior, isto é, a do espírito, e
a da carne. Duas cidades, a secularmente orientada pela cupidez e a
espiritualmente orientada pela caridade. Há também dois tempos, o
Aevum, que é vida eterna, o “tempo cósmico da criação” e o
tempo do homem “o tempo histórico da alteração”, conforme as
expressões de Alliez.
Ora,
o plotinismo também observa uma duplicação temporal. Pois o que a
alma que contempla o Inteligível vê são formas de luz enquanto que
na existência corpórea o que resta a ver são os traços sem
qualidades das figuras geométricas, a pura ilusão da materialidade.
A via da salvação consiste na renúncia da alma a esse olhar que
obscurece a visão para liberar aquele ver que lhe restitui a visão
da luz no êxtase – experiência do Todo. Mas nesse acontecimento
de Contemplação o que se libera é também o tempo do Aion que
Alliez conceituará como a autotemporalização do absoluto, o
originário do tempo em que os modos do passado e do futuro são
contemporâneos do presente na síntese passiva da unificação do
ser.
Experiência
da arte bizantina, o Aion do plotinismo estaria assim na prefiguração
do Ereignis heideggeriano e do Logos do mundo estético, o Urzeit
husserliano. Trata-se do paradoxo do sentido íntimo. Pois o Ereignis
enquanto Contemplação, só restitui o Eu puro no momento mesmo em
que ele deixa de ser o “eu” individual que se autoapreende a si,
isto é, quando torna-se “outro”, seu centro devendo agora ser
coincidente com o centro do universo.
Já
na conceituação do tempo em Santo Agostinho a duplicação inicial
deve redundar em três apresentações. Inicia-se com a menção ao
Aevum, o tempo em que Deus cria o mundo, o tempo cósmico dos
movimentos celestes, eternidade participada às criaturas naquilo em
que elas são mais essencialmente. A seguir deve-se conceituar o
tempo existencial que não se mede pelo movimento do corpo e sim pela
atividade da alma. Simetricamente oposto ao Aevum esse é o tempo
como distensão da alma, o tempo derivado da queda. Trata-se do
tempo psicológico, ligado à avareza e à atividade do mercadejar
porque só se instaura a partir do momento em que o ser humano se
exterioriza no mundo da materialidade,
Mas
como reconduzir essa alma que se distende, à qual o tempo é a
atividade mais própria, a forma mesma da atividade pois só “mede”
a duração como movimento intensivo de espera, atenção,
expectação, sendo a distensão sempre o tender ao futuro, como
reconduzir esse tempo derivado da alma ao pensamento do homem
interior, espiritual, portanto mantendo a relação essencial com o
criador através do exercício da fé?
A
via da contemplação do plotinismo não poderia se manter uma vez
que a conciliação só se faz, como conversão, por uma providência
posterior, o Cristo, ao invés de se propor como constitutividade do
humano mesmo. No entanto, se a relação é de autoria, deve haver
algo de participado na criatura que vem do criador. Santo Agostinho
vai utilizar aí a oposição entre os termos distensio e intentio. O
tempo derivado, que é o que conhecemos do mundo “secular” é
distensio animi, o tender da alma ao futuro que pertence ao comum dos
homens na exterioridade das relações. Mas à alma, através do
exercício da fé, conserva-se a via da Intenção, a Intentio, pois
ela assegura a transformação dos modos temporais, ampliando o
presente, sendo agora o tender da alma ao eterno.
Assim,
desde o Aevum e a caracterização do tempo secular da distensio,
segue-se a teorização do tempo teológico da intentio como via de
conversão de modo que se a ciência procede pela exterioridade na
distenção, a sabedoria é “contemplação do eterno”, a via do
homem interior. Observa-se que a conservação da noção de
contemplação se desloca em relação ao uso que dela se faz em
Plotino. Pois esse tempo não poderia ser concebido por si mesmo, sem
a pressuposição do presente eterno de Deus que no entanto
permanece por natureza irredutível à alma.
Como
as duas cidades na existência terrestre os dois tempos não chegam
nunca a se destacar completamente, permanecendo de algum modo
misturados. Conceitualmente é preciso pensar a síntese dialética
mas como operação cristã ela deve supor a realidade "mesites”
do Logos e aquilo que a ela se relaciona, a realidade da Cisão.
A
questão aí não é de modo algum simples. A liberação da Intenção
depende da cisão fundamental de criador e criatura que se refaz no
âmbito mesmo do humano enquanto este é vontade e consciência que
decide entre o homem secular e o homem espiritual, exterior e
interior. Mas todas as duplicações convergem para esse paradoxo da
semelhança-reconciliação dos opostos. Assim é uma apreensão
metafísica, não psicológica, que permite captar a figuração
interior de Deus no mais profundo da consciência de si, na “Memória
Dei”. Objeto intencional moralmente sancionado porque cem por cento
interior.
O
que se pode possibilitar assim, no plano mesmo da criatura ainda que
transpondo-se pelo exercício da fé, é aquilo a que se relaciona a
introdução do Logos-mesites. Pois se o Logos é dado na relação
Deus-criatura, a mutação afeta a apreensão mesma do Ser. Há
identidade entre consciência e objeto, preexistência espiritual das
coisas, corte com o pensamento antigo do ser que se conservava como
entidade objetiva.
A
relação da trindade com as hipóteses já o demonstra, pois se em
Plotino a conservação de Ser e Essência se mantém derivada do
Uno, o cristianismo oficial vai taxar de heréticas as objeções
de Sabélio e dos Modalistas da Igreja oriental que insistem na
negação da assimilação do Verbo hipostasiado a Cristo. O dogma
prescreve essa assimilação no momento mesmo da afirmação da
Trindade. Deus é Ser e Ser é Verdade. A independência do
plotinismo, do Uno em relação ao Ser, não se mantém. A Intensão,
como a Revelação, não são acontecimentos de auto-apropriação mas
sim fatos do conceder da existência já pressuposta como derivação
do criado em relação ao criador.
Assimilação
da realidade do mundo com o ser criado, logo a existência resultando
como o mais inautêntico, domínio do afinal meramente prático e
utilizável. A cisão permanece, pois a verdade da alma é a sua
limitação em relação a Deus. O que é eterno é a hierarquia dos
espíritos. Se o tempo teológico tende para o Aevum como eternidade,
neste não se encontra mais do que a mesma limitação derivada da
Cisão. O máximo de transcendência acarreta assim o máximo de
limitação do particular, inversamente ao plotinismo onde a
transcendência é o horizonte de abertura na qual todo o particular
se abole para liberar a continuidade do Princípio que, mais
propriamente, o constitui.
Nesse
sentido pode-se reconsiderar o aporte humanista do cristianismo, o
modo pelo qual ele se instala, como já afirmei, no horizonte
conceitual do pensamento retórico-hermenêutico grego. Pois se
podemos ainda pretender que a Intensão de Santo Agostinho retoma
algo da imagem-contemplação de Plotino, liberando-se da
imagem-ação, quanto a isso devemos recordar a afirmação de Paul
Ricouer, citada por Alliez, pela qual há impossibilidade da pertença
fenomenológica do tempo agostiniano, ao mesmo tempo em que aí se
pode localizar a fenomenologia única e autêntica.
A
transposição do plano parece-me porém não estender tal afirmação
no sentido do paradoxo. Pois a relação da Revelação depende do
Conceder da graça, e a criatura jamais aspira à sua própria
natureza no Todo.
Recoloca-se
aqui de certo modo a questão complicada da Ocidentalização. Pois
se não se pode pensar seus momentos como de todo sem relação uns
com os outros, resta que na medida em que se afasta tão
decisivamente de toda possibilidade de uma ontologia fundamental a
dogmática cristã se relaciona de certo modo com o crescimento do
deserto que caracteriza o aporte relacionante de pensar e razão tão
propriamente metafísico e ocidental.
O
afastamento aí é precisamente feito em relação àquele “pensar
poetante”, ou ao elemento puro da contemplação, ao pensamento
não subsumido à proposição e ao juízo lógico. Mas parece
problemático convergir no mesmo horizonte essa dogmática cristã
, para a qual a razão é sempre algo derivado, reservado ao domínio
do instrumento, e a possível definição moderno-contemporânea do
Ocidente como projeto de racionalidade total.
Mas
se for feita abstração do juízo de valor, o que o cristianismo
possibilitou em relação a esse novo momento da ocidentalização é
a sua essência mesma realizada, na medida em que o termo “razão” só se
determinou por completo nesse aporte de utilidade, nesse estar
voltado ao ente, a partir do pensamento cristão. Até então a
tensão permanecia entre tendência metafísica e abertura
hermenêutica de modo que no interior do mundo grego e da filosofia
“pagã” mesmo após as “decisões operadas no platonismo”,
conforme a expressão de Boutot, conservava-se o sentido originário
da Physis, o que a via sincrética do helenismo poderia, inclusive,
vir a favorecer.
Não
obstante, o pensamento cristão e o que dele se conservou, por
exemplo em Kirkegaard, conforme observou Pépin, sempre sustentou o
primado do absurdo como objeto da fé. Mas vimos qual a imagem da
razão que daí deriva. Pode-se propor , contudo, que o problema
restou intacto. Pois essa imagem não prolonga aquelas decisões
mesmas, de modo que, como sugere S. Weil o platonismo prepara o
cristianismo? Parece-me contudo que o neoplatonismo antepõe a
necessidade de se afirmar que não necessariamente. Pois o projeto
platônico poderia ter prosseguido numa interlocução que viesse
recuperar o sentido mais originário de suas palavras-guia
autenticamente gregas.
Quanto
a isso é interessante a observação de Bréhier pela qual os
próprios “destinos da filosofia” da época feudal poderiam ter
sido outros se Boécio houvesse levado a cabo seu “imenso trabalho”
de traduzir em latim as obras de Platão e Aristóteles.
O
mundo fechado dos claustros derivou, como reporta Bréhier, do
sem-número de comunidades filosóficas religiosas do paganismo,
características do final do helenismo, que parecem reconstituir o
cenário do “Contra os Acadêmicos” agostiniano. Mas a
reintrodução das obras de Aristóteles e a doutrina de São Tomás
já é a ambiência tardo-feudal. Sem aprofundar a análise do
período, basta observar algo da filosofia de Duns Scot quanto à
teoria do tempo.
Conforme
Alliez, aceitando a independência do tempo relativamente ao
movimento físico, como aporte propriamente agostiniano, Duns Scot
deverá opor o que ele designa como tempo abstrato, potencial
enquanto existente na ausência de qualquer movimento, ao tempo atual
que o representa, contudo, mensurando todo movimento real.
Resta
que o tempo abstrato, se independente do movimento celeste, não é
mais, por isso, psicológico, e sim absoluto, independente da
experiência, aprioristicamente postulado. O tempo comum permanece,
portanto, relativo à experiência, à percepção dos movimentos
visíveis dos corpos celestes.
Conhece-se
a história: a partir desse ponto tender-se-á a limitar o conceito
de tempo ao sentido exclusivo do tempo atual convergindo assim,
concomitantemente à unificação da lei natural universal, até aí
observando a repartição dos mundos celeste e sublunar, na eclosão
da física moderna. Mas aqui já se pode introduzir o cenário – e
as conseqüências – dessa revolução.
Ela é precedida pela transição da patrística à escolástica, onde a influência aristotélica do tomismo, sucedendo a exclusiva interlocução platônico-plotiniana, adapta o cristianismo a um contexto de independência do saber contrastante com a dependência agostiniana da graça. Porém seria falso considerar a transição num sentido sucessivo único, pois o augustinismo permaneceu uma tendência autônoma no interior do cristianismo, influente em vários movimentos importantes na história das ideias, como em Duns Scottus, Descartes e Malebranche.
A unidade do processo de ocidentalização se caracteriza assim, pois se a metafísica grega pode significar a conversão racional, isto é, astrofísica, da antiga religião dos deuses natureza, já se a atribuiu como uma nova religião, deliberadamente produzida pela filosofia socrática como via sistemática do conceito.
Aristóteles, Platão e os estoicos conservam o elemento teológico de consistência na pureza metafísica dessa racionalidade específica da Antigüidade, colocando o termo final do processo de conhecimento respectivamente na forma inteligível, na noesis como conceito ou na compreensão. É a natureza mesma daquilo que se conhece que se transpõe teologicamente, seja pela realidade da essência, seja pela aspiração de tudo à forma, ato ou Deus como telos.
Já em Plotino a ascese deve propor-se mais especificamente, colocando como termo final o êxtase, subentendendo os momentos preliminares de reflexão (raciocínio e demonstração) e inteligência (pensamento intuitivo ou intelectual). E o cristianismo introduz, com Santo Agostinho, a teoria da iluminação por Deus das idéias presentes na alma. A mesma consistência teológica se preserva assim como unidade, por toda a ambiência antiga e medieval.
A quantidade de conhecimentos novos que o Renascimento recolhe na amplitude histórica do retorno do urbanismo e dos contatos internacionais pelas rotas do comércio ultramarino revoluciona o saber, certamente. Mas é preciso considerar que sempre mantendo a consistência da unidade teleológica cuja origem é a onto-teologia mas cujo meio da realização essencial é o humanismo subjetivo cristão expresso em Santo Agostinho, de modo que mesmo que hoje, e desde o Romantismo, a consciência da heterogeneidade cultural tivesse que relativizar a natureza totalizante do processo, continuaria sendo uma constante na problemática do "desenvolvimento" político e científico.
O excentramento pós-moderno só poderá elaborar-se numa contínua revisão de suas próprias premissas teóricas, uma vez que independente da variação do seu situamento, elas confluem de algum modo com esta mesma "história das ideias". O que é possivelmente um outro modo de enunciar a tarefa de rememoração da metafísica, que Heidegger considerou como o reservado ao pensamento no momento da superação da filosofia pela sua realização absoluta, a ciência, era planetária da dominação ocidental.
====
Ela é precedida pela transição da patrística à escolástica, onde a influência aristotélica do tomismo, sucedendo a exclusiva interlocução platônico-plotiniana, adapta o cristianismo a um contexto de independência do saber contrastante com a dependência agostiniana da graça. Porém seria falso considerar a transição num sentido sucessivo único, pois o augustinismo permaneceu uma tendência autônoma no interior do cristianismo, influente em vários movimentos importantes na história das ideias, como em Duns Scottus, Descartes e Malebranche.
A unidade do processo de ocidentalização se caracteriza assim, pois se a metafísica grega pode significar a conversão racional, isto é, astrofísica, da antiga religião dos deuses natureza, já se a atribuiu como uma nova religião, deliberadamente produzida pela filosofia socrática como via sistemática do conceito.
Aristóteles, Platão e os estoicos conservam o elemento teológico de consistência na pureza metafísica dessa racionalidade específica da Antigüidade, colocando o termo final do processo de conhecimento respectivamente na forma inteligível, na noesis como conceito ou na compreensão. É a natureza mesma daquilo que se conhece que se transpõe teologicamente, seja pela realidade da essência, seja pela aspiração de tudo à forma, ato ou Deus como telos.
Já em Plotino a ascese deve propor-se mais especificamente, colocando como termo final o êxtase, subentendendo os momentos preliminares de reflexão (raciocínio e demonstração) e inteligência (pensamento intuitivo ou intelectual). E o cristianismo introduz, com Santo Agostinho, a teoria da iluminação por Deus das idéias presentes na alma. A mesma consistência teológica se preserva assim como unidade, por toda a ambiência antiga e medieval.
A quantidade de conhecimentos novos que o Renascimento recolhe na amplitude histórica do retorno do urbanismo e dos contatos internacionais pelas rotas do comércio ultramarino revoluciona o saber, certamente. Mas é preciso considerar que sempre mantendo a consistência da unidade teleológica cuja origem é a onto-teologia mas cujo meio da realização essencial é o humanismo subjetivo cristão expresso em Santo Agostinho, de modo que mesmo que hoje, e desde o Romantismo, a consciência da heterogeneidade cultural tivesse que relativizar a natureza totalizante do processo, continuaria sendo uma constante na problemática do "desenvolvimento" político e científico.
O excentramento pós-moderno só poderá elaborar-se numa contínua revisão de suas próprias premissas teóricas, uma vez que independente da variação do seu situamento, elas confluem de algum modo com esta mesma "história das ideias". O que é possivelmente um outro modo de enunciar a tarefa de rememoração da metafísica, que Heidegger considerou como o reservado ao pensamento no momento da superação da filosofia pela sua realização absoluta, a ciência, era planetária da dominação ocidental.
====
Nenhum comentário:
Postar um comentário